De pai para filho

/ Reportagem

De pai para filho

TEXTO Débora Almeida

“Era uma vez um reino muito, muito distante…” Quem nunca ouviu, quando criança, essa frase dita por um adulto? Ela era a porta de entrada para um mundo de fantasias, que a cada noite alimentava nossa imaginação antes de cairmos no sono. Pensando no incentivo ao hábito da leitura, a Fundação Itaú Social criou, em 2010, o programa Leia para uma Criança, que distribui livros infantis para que os pais leiam para os filhos. A iniciativa parte do princípio de que ouvir histórias nos primeiros anos de vida tem efeitos surpreendentes na educação e na comunicação.

O programa entrega na casa de pais, voluntários de organizações sociais e professores um conjunto de títulos recomendados por educadores e especialistas em educação infantil, além de dar dicas de leitura e de atividades para fazer com a criança. Mais de 22 milhões de exemplares já foram distribuídos. Neste ano, foram disponibilizados os títulos Lino, de André Neves (Callis); Poesia na Varanda, de Sonia Junqueira (Autêntica); e O Ratinho, o Morango Vermelho Maduro, e o Grande Urso Esfomeado, de Don e Audrey Wood (Brinque-Book). Valéria Riccomini, diretora da Fundação, afirma que a ação é direito básico das crianças. “Ler para elas faz parte não só de sua preparação para a aprendizagem, mas ajuda no desenvolvimento socioafetivo, quando se vê a relação que criam com um adulto. Além disso, incentiva a inventividade, trabalha os medos, entre outros benefícios”. Em recente pesquisa encomendada pela instituição para o Datafolha, apesar de 96% dos respondentes acharem que é importante ler para uma criança, apenas 37% têm o hábito.

A educadora Daniela Mott, que trabalha com leitura em sala de aula para crianças de 4 anos, avalia que é possível ver o desenvolvimento dos alunos com o passar do tempo. “No início eles ficavam um pouco tímidos e apenas ouviam, mas ao se familiarizarem adquiriam confiança e admiração em relação ao adulto.” Ela sempre propõe aos alunos, após a leitura, que inventem um final diferente para a história. “Peço que acrescentem um personagem e eles adoram, conversam entre si, dramatizam. Isso cria um vínculo de amizade e carinho entre o adulto e a criança.” De sua experiência, conclui que as crianças não alfabetizadas conseguem, de maneira surpreendente, observar, imaginar e criar algo diferente, aprendendo facilmente a converter palavras em ideias.

Segundo a Fundação Nacional de Leitura Infantil dos Estados Unidos (National Children’s Reading Foundation), ler durante 20 minutos por dia para os filhos nos primeiros cinco anos de vida é o equivalente a 600 horas de pré-alfabetização. De acordo com estudos dessa entidade, ler “conecta” as células do cérebro em redes que depois facilitarão a leitura quando a criança estiver sozinha. Ela vai poder distinguir sons (percepção de fonética), reconhecer letras e elaborar estratégias para descobrir novas palavras (decodificação), desenvolver habilidade para entender o que os termos significam em referência ao mundo real (criar contextos), além de desenvolver um bom vocabulário oral (aproximadamente 5 mil palavras, ainda no jardim de infância).

Como formar o pequeno leitor
Veja dicas do Leia para uma Criança

> Tenha conversas frequentes com seu filho. Ouça-o e faça perguntas cujas respostas precisem ser mais que uma ou duas palavras.
> Leia ao menos 20 minutos por dia. Reserve um horário e tente mantê-lo. Torne o hábito prazeroso para ele e para você.
> Deixe os livros ao alcance das mãos, em todos os cômodos da casa. Livros devem ser usados e não guardados.
> Dê o exemplo e leia você também. É com o exemplo que aprendemos.
> Frequente livrarias e bibliotecas. Presenteie com livros, gibis ou revistas.
> Incentive seu filho a contar as histórias que ouviu a outras pessoas.
> Pais que não são leitores fluentes ou não gostam de ler podem contar histórias de sua própria vida, de sua imaginação, ou criar narrativas com imagens de livros ilustrados.