Aqui quem manda é a criança

/ Entrevista

Aqui quem manda é a criança

Desde que criou o Memorial do Homem Kariri, museu situado em Nova Olinda, pequena cidade ao sul do Ceará, o músico Alemberg Quindins descobriu a força mobilizadora das crianças. “[Elas] praticamente invadiram a casa [...]“, conta o músico, que em 1992 ampliou a atuação do memorial criando a ONG Fundação Casa Grande. De lá para cá, ele coordena uma impactante experiência de protagonismo infantil e gestão cultural, reconhecida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e modelo para outras instituições Brasil afora. Entre os projetos da ONG estão os laboratórios em que as crianças aprendem a produzir programas de TV e rádio e impressos, como jornais e quadrinhos. Esta entrevista, realizada pelos minirrepórteres da Casa Grande, mostra como se dá a atuação das crianças e seu domínio das ferramentas da comunicação.

Pelas Crianças da Fundação Casa Grande

Como criou a fundação e qual a intenção do projeto?
Quando a gente criou a fundação a idéia era instalar um centro cultural na região, com a intenção de resgatar a memória local. Seria um centro cultural em que a juventude pudesse produzir arte. Mas o que aconteceu foi que as crianças de Nova Olinda praticamente invadiram a casa e começaram a observar como as pessoas eram atendidas; elas nos surpreenderam passando, então, a atendê-las e a organizar o local. Então vimos a força que tinham e optamos pelo seguinte: a fundação seria um centro cultural cujo prisma é o da criança. Quem ajudou a formar a filosofia da Casa Grande foram elas próprias. O espírito da escola de comunicação da fundação está próximo do que dizia a poetisa Cora Coralina: a gente “ensina o que aprende e aprende ensinando”.

Quem são os meninos da Casa Grande?
Os integrantes da fundação são meninos da comunidade de Nova Olinda que a gente chama de “meninos de ponta de rua”. Eles vivem na parte mais simples da cidade. Mas todos estão matriculados na escola, todos têm sua casa. Não há limite de idade, nem para o ingresso nem para a saída das crianças da fundação. Alguns meninos que chegam aqui são de colo, trazidos por seus irmãos. Todos usufruem a fundação e têm a consciência de que esse patrimônio deve ser deixado de herança para os futuros participantes. Na verdade, estamos fazendo uma casa para crianças que ainda nem nasceram. A Casa Grande não quer substituir o papel da família, não quer tomar a função da escola, mas oferecer um complemento a elas. Quando uma família reconhece seu papel, ela facilita o trabalho da escola, a convivência na rua e também a velocidade das ações da ONG. Nossa missão é fazer com que a criança tenha acesso à cultura e ao lazer.

Como é o dia-a-dia na fundação?
A Casa Grande tem dois níveis de atendimento. O primeiro é o de formação de monitoria. Setenta crianças e adolescentes, em média, são formados para ser monitores, e eles aprendem esse ofício na prática. Há ainda outros meninos, em média 200, que freqüentam a Casa Grande para auxiliar os monitores. Outro nível é o de atendimento geral, que, em 2007, mobilizou 25 mil pessoas. O público que freqüenta a Casa Grande é que aquece o protagonismo infanto-juvenil, porque quanto mais visitantes mais atendimento, mais material produzido. As crianças se mobilizam porque é uma oportunidade de aprendizado, é um ato de construir amizades. Elas têm feito contato com gente do mundo inteiro. As pessoas vêm aqui abertas para receber e abertas para ensinar, se colocam à disposição doando discos e livros e realizando oficinas para os meninos.

Como funciona a escola de comunicação?
As crianças têm acesso ao laboratório de música, ao laboratório de vídeo e ao laboratório de quadrinhos, para aprender de tudo um pouco, de acordo com sua escolha. No laboratório de quadrinhos, elas podem, por exemplo, fazer uma revista. Dessa experiência, já percebem que quadrinhos têm uma ligação com animação para TV, e podem ampliar o que estão aprendendo, dando movimento a eles. Daí elas têm a possibilidade de aprender música e sonorizar essa imagem em movimento. Os laboratórios da Casa Grande se interligam, o que torna as crianças multifuncionais, justamente para que possam conhecer a diversidade do mundo, ter acesso à comunicação de cada área, saber como comunicar um instrumento, como comunicar uma imagem de vídeo, como comunicar cada coisa. Para isso, elas passam por todos os meios de comunicação, para ter mais recursos e uma visão mais profunda.

Que produtos são desenvolvidos pelas crianças? Eles são distribuídos à comunidade?
A própria instituição já é uma produção para a comunidade. Por exemplo, os habitantes têm acesso ao museu. Nele, as crianças produzem informações sobre a história da região. Na TV Casa Grande, laboratório de vídeo da fundação, produzimos um material chamado 100 Canal - curtas de aproximadamente cinco minutos, que mostram o nosso olhar sobre a cidade, seus habitantes, suas festas populares, entre outros temas. Esse material é exibido nas sessões de cinema aos domingos. Nesses dias, há uma sessão de manhã para as crianças e à noite há uma programação para todos. Os meninos têm uma semana para produzir cada100 Canal. Eles vão às ruas, captam imagens e depoimentos, editam e exibem o material. Então, desde a infância a criança produz informação, não é apenas receptora. A Casa Grande tem mandado quatro matérias por mês para a TV Futura, mostrando a diversidade da região do Cariri e também de outros locais. Três jovens estão envolvidos nessa produção. Isso faz com que eles aprendam a se relacionar com uma TV profissional. A trilha sonora dos programas também é feita pelos meninos.

Quais são os futuros projetos da fundação?
Estamos criando dois tipos de laboratório: o de conteúdo, cujo objetivo é fazer as crianças ter acesso a uma boa informação, integra a gibiteca, a devedeteca, a biblioteca de referência e outra de literatura infantil. Já o laboratório de informática é para que as crianças tenham acesso às novas tecnologias. O site da Casa Grande [www.fundacaocasagrande.org.br], por exemplo, é feito pelos próprios meninos e abriga seus blogs. E haverá também os laboratórios de produção nos quais as crianças vão criar materiais de acordo com seu próprio olhar. Elas terão oportunidade de ver os avanços do cinema, dos quadrinhos e das demais formas artísticas. Com base nesse conhecimento, terão condição de opinar, demonstrar sua visão.

A fundação é modelo para outros projetos em todo o mundo…
Sim, a Casa Grande hoje é uma referência. A rede de crianças e adolescentes em comunicação de países de língua portuguesa, que o Unicef iniciou em Angola e Moçambique, foi inspirada na fundação. Hoje, só em Moçambique são 32 programas de rádio, de criança para criança, e já há um programa de televisão numa rede a cabo, que passa em vários países da África, produzido por esses meninos. Em Angola são sete províncias que fazem programas de rádio de criança para criança. E isso começou aqui. O Unicef do Brasil teve a iniciativa vendo os meninos da Casa Grande fazendo rádio. Há uma criança que freqüentou a Casa Grande e hoje está no mercado de trabalho, como produtor cultural. Mas é uma criança que não sente dificuldade em ser um produtor cultural porque desde os 9 anos ela brinca disso. Existe uma conexão sem trauma entre o brinquedo da infância e o início da profissionalização.